Relatório da UFF analisa 40 anos de degradação costeira no estado do Rio

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Cerca de 22 mil quilômetros quadrados do litoral fluminense foram analisados para registrar a degradação do solo ao longo de 40 anos
Com base em fotos de 1984 a 2024, o Inventário da Degradação do Solo na Zona Costeira do Rio de Janeiro, projeto da Universidade Federal Fluminense (UFF), mapeou, avaliou e propôs estratégias de gestão para as áreas onde a terra aparece danificada.
A partir de imagens de satélite, sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica, foi possível acompanhar as mudanças das paisagens litorâneas do estado fluminense ao longo dos 40 anos. Na pesquisa, as análises foram aplicadas na área entre os municípios de Búzios a São Francisco de Itabapoana, Cachoeiras de Macacu, Costa Verde (Itaguaí, Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty) e Maricá.
Para explicar por que a degradação da área destes municípios é uma preocupação crescente, Mohammad Al Abed, professor visitante da UFF e autor da pesquisa, destaca alguns fatores: em primeiro lugar, a degradação em encostas íngremes acelera deslizamentos e o escoamento superficial, ou seja, o fluxo de água sobre o solo quando ele já não consegue mais absorver a chuva. “Isso coloca em risco as comunidades em cidades como Angra dos Reis, onde mais de 60% do município é suscetível a deslizamentos”, evidencia.
Apesar da preocupação, o relatório aponta que de 66% a 90% dos locais apresentam estabilidade no solo das áreas costeiras, mas ainda é necessário atenção nas regiões onde a degradação se alastra pelas paisagens fluminenses naturais, os chamados hotspots: áreas ricas em biodiversidade ameaçadas no quesito conservação.
Entre os pontos mais críticos, está a faixa que vai de Búzios a São Francisco de Itabapoana, na região nordeste do estado. Devido ao desmatamento para a pecuária e cultivo de café, mais de 25% do território ali é classificado como área instável, dominada por erosão em sulcos – um desgaste do solo causado pelo escoamento irregular de água. Dentre os 2.460,85 km² degradados, 1.916 km² são cobertos por zonas instáveis de alta prioridade.
Já entre Maricá e Búzios, as áreas instáveis foram causadas pela expansão das fronteiras agrícolas e o crescimento urbano acelerado, enquanto a Costa Verde, incluindo Angra dos Reis e Paraty, tem erosão em sulcos próxima a áreas urbanas e falta de estabilidade impulsionadas pelo turismo e construção de estradas. Ali, por exemplo, teve um crescimento urbano calculado em 254% ao longo dos 40 anos analisados. Maricá, por fim, registra 5,88% de zonas com o solo degradado causadas por incêndios e substituição de vegetação por pastagens.
A degradação também danifica as infraestruturas críticas, como as estradas, dutos e até moradias, além de aumentar os custos municipais de resposta a desastres. Junto às chuvas intensas e prolongadas na região, o solo passa a ter alta erosividade, portanto, quando a vegetação é removida, ele também é rapidamente levado pela água. Além disso, a expansão urbana desordenada também é um fator alarmante.
O desmatamento e os incêndios são problemas recorrentes nos centros urbanos atuais e têm impacto direto na degradação. As práticas removem os sistemas radiculares que fixam o solo — em Maricá, por exemplo, os incêndios foram responsáveis por 26% da perda de cobertura arbórea entre 2001 e 2023. Os manguezais e restingas, ecossistemas costeiros protetores, atuam como barreiras contra tempestades e elevação do nível do mar, porém podem ser destruídos igualmente. A Costa Verde do Rio, como um todo, perdeu 16,3% de sua restinga e 47,8% de suas áreas úmidas, por exemplo.











